Estreando a coleção Orpheu está o poeta Marcelo Ariel, considerado um dos grandes poetas da nova geração da poesia brasileira.
Nascido em Santos (SP) em 1968, Marcelo Ariel estreiou na poesia com o livro Me enterrem com a minha Ar-15 (Dulcinéia Catadora, edição artesanal, 2007); depois lançou os livros Tratado dos Anjos Afogados (Letraselvagem, 2008) e O céu no fundo do mar (Dulcinéia Catadora, edição artesanal 2009). Poeta e dramartugo, Marcelo Ariel, é melhor visto como poeta transgressor ao unir diversas camadas de linguagem do mundo pós-moderno a poesia.
A coleção Orpheu tem o prazer de estreiar com o poeta Marcelo Ariel lançando sua obra Conversas com Emily Dickinson.
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Abaixo um dos poemas do livro Conversas com Emily Dickinson:
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CARTA PARA A MORTE
Imagino Camões, a vala onde morto estava;
O quarto onde encontraram o cadáver de João Antônio;
O sapato que Antonin Artaud segurava;
No paletó de Garcia Lorca a flor intacta;
A cama molhada de suor do último sono de Caio F.;
O prato vazio que caiu das mãos de Óssip Mandelstam;
Os círculos na água provocados pelo corpo de Paul
Celan…
Devo parabenizá-la por estes momentos de uma estilística
sempre surpreendente,
somente às vezes ofuscada pelos lampejos precários desta
luz fraca que caminha nas capas…
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Comentários:
a poesia, ao não conversar com ninguém, conversa com todo mundo. daí o perene “contornos de névoa” de toda poesia q não é reprodução de prosas mal acabadas. marcelo ariel luta por essa palavra numa guerra sem fim. isso q é apenas um “buraco da árvore da linguagem”. o essencial q se esconde. e apenas raramente aparece. e aparecendo deve ser eliminado. calado, esquecido. tocar a poesia como faz marcelo ariel é perigoso. não apenas a linguagem fica nua, não apenas o real estremece como a água depois da pedra, mas há algo de insolente nessa passagem do poema por um território de poetastros e poeminhas. entre nós “algo imensamente raro” costuma ser silenciado. cabe a alguns tentar manter essas “águas sonhando” longe das malhas devoradoras do poder da oligarquia das letras. sim, “as coisas são um incêndio” e marcelo ariel sabe manter o fogo acesso na nossa idade do gelo. “Lá fora/o poder de/um fantasma/destrói o mundo”. e o poema entra em guerra porq apenas ele pode fazer frente a isso. ele mesmo, isso q de tão frágil, não pode sequer ser tocado. ele sabe, a poesia sabe, q “a verdade é impossível com a linguagem”, q o diálogo é impossível, mas assim mesmo continua. é essa a força do poema de marcelo ariel: resistir mesmo sabendo q, por perder, já ganhou. como no poema “o paradoxo”, onde tudo gira em torno, e se abre ao enfrentamento essencial da arte, esse q querem substituir por um silencio atordoado, seja das mídias, das pedagogias, das teorias castradas. e todas as matérias, poetas, linguagens, raivas, deslumbramentos, delírios, teatros, filosofias, artes chegam pros poemas de marcelo ariel, poemas plásticos, construídos por um delírio lúcido q apenas um poeta pleno consegue atingir, apenas a poesia consegue ainda erguer das mediocridades. este é um livro q resgata a “vida secreta”, esquecida, do fazer poemas em guerrilha, em surdina, poemas q passam a fazer parte da nossa visão de mundo, do nosso viver e elevam o patamar rasteiro e silvestre da “poesia nacional”. e o silêncio de emily dickinson torna a invadir sem se repetir, pois já não há diálogo possível. os poemas se instauram como olhos. marcelo ariel, “no mesmo não-lugar atemporal dos Nomes-Nume lendo a árvore”, continua uma conversa antiga, partida, devorada, agora retomada por quem sente falta das grandes forças. enfim poderemos, mais uma vez, atravessar a morte, com alegrias e tristezas, longe do torpor dentro dos desertos q criamos.
Alberto Lins Caldas
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Temos, nesse Conversas com Emily Dickinson, o encontro entre uma poeta (1830-1886) que não se entrega fácil, buscando o inefável numa dicção elíptica, quase balbuciante (a gramática normativa tem muito que aprender com a poesia pura), em imagens onde a natureza é mística – nunca religiosa – e um poeta que, ao contrário, convoca todos os espectros, objetos, presenças pesadas da cidade que ele atravessa em seu passo único, essencial para ir além do construído e chegar ao real, isto é, ao sentido até então oculto daquilo que parecia ser tão raso não fosse a poesia e seu olhar de microscopista. Entre o que emana da norte-americana do século XIX e o que vocifera no brasileiro do início do século XXI há convergências que só a poesia conhece. E o leitor de poemas, naturalmente, identifica.
Marcelo Ariel é um jovem – para a literatura feita de lirismo, 42 anos é juventude – que brotou do chumbo no ar da realidade dura na qual sobreviveu com uma luta nada lírica, e que chegou até o território da selvagem sabedoria de resgatar-se e à sua humanidade pela palavra, amadurecendo, assim, bem antes do previsto. Seu verso é sua cachaça (o crítico pede licença para parafrasear Drummond). E nele ele pode entregar o máximo do que carrega e daquilo que igualmente o carrega – embora sem calá-lo –: “preferindo os tormentos / do espírito como vícios / que nenhuma razão desintegra.”
Emily Dickinson encontrou um interlocutor capaz de escutá-la e de lhe dizer. Cabe a nós, leitores de ambos os poetas, a coragem de entregar-nos à emoção que esse testemunho, através deste livro, nos causa. Meu conselho: faça como eu. Mesmo atingido, desde o 56o verso, pela força enorme da expressão, continuei em frente, até o fim. E terei ainda forças de recomeçar, pela releitura.
Paulo Bentancur